São Paulo, quinta-feira, 20 de dezembro de 2001
"APOCALYPSE NOW REDUX"
Para Coppola, a guerra é doença da civilização
JOSÉ GERALDO COUTO
COLUNISTA DA FOLHA
A guerra é a manifestação mais extrema da loucura. Produz loucos e é produzida por eles. Foi o que "Apocalypse Now" mostrou ao mundo há 22 anos.
Mas nessa loucura, como na de Hamlet, há um método, ou, pelo menos, uma lógica. É isso que a versão definitiva do filme, "Apocalypse Now Redux", deixa mais claro do que nunca.
O enredo é conhecido: em 1969, o capitão Willard (Martin Sheen) tem a missão de subir com um punhado de jovens fuzileiros o rio Mekong, no Vietnã, entrar no Camboja, encontrar e matar o coronel Kurtz (Marlon Brando), que aparentemente enlouqueceu e se tornou o messias de uma comunidade macabra de fanáticos.
O modelo inspirador é a jornada Congo adentro realizada pelo capitão mercante Marlow em busca do agente colonial Kurtz, na novela "O Coração das Trevas" (1902), de Joseph Conrad.
Trata-se, evidentemente, de uma viagem iniciática. Ao seguir os passos de Kurtz, Willard acaba atravessando todas as fronteiras que o outro atravessou: entre o Vietnã e o Camboja, entre razão e loucura, civilização e barbárie, cultura e natureza.
É o embate entre natureza e cultura, de resto, que pulsa em cada plano do filme, dos helicópteros que despejam fogo sobre a selva, ao som de Wagner, aos versos de T.S. Eliot declamados por Kurtz em sua choça primitiva.
Mas não se trata de uma oposição simples, maniqueísta, como a dos discursos de Bush ("Somos a civilização, o inimigo é a barbárie"). Mesmo na versão de 1979, o foco do filme estava voltado para a precariedade da própria idéia de civilização.
Dito de outra maneira: o que interessava ao filme era mostrar o quanto de barbárie existe, em semente, na sociedade civilizada.
O que fica mais claro com os 53 minutos recuperados e acrescentados à nova versão é de qual civilização se está falando. Não é do "homem", em abstrato, que nos fala "Apocalypse Now Redux", mas da sociedade moderna ocidental e, mais precisamente, da sociedade norte-americana.
Duas "novas" sequências são essenciais para lançar essa nova luz. Numa delas, Willard e seus comandados reencontram, num acampamento alagado, as coelhinhas da "Playboy" cujo show haviam visto semanas antes.
Em troca do combustível de que seu helicóptero precisa para sair dali, elas passam algumas horas com os rapazes de Willard.
É uma sequência terrível, tristíssima, em que os garotos e as garotas não conseguem nem ao menos se comunicar, quanto mais fazer amor.
Elas estão catatônicas, traumatizadas pelos abusos sexuais que vêm sofrendo. Eles buscam a imagem de sensualidade ideal que a indústria cultural lhes vendeu. Mataram homens, destruíram aldeias, mas não passam de adolescentes masturbadores. Seu único contato com o outro é por meio das armas.
Poucas vezes o cinema terá construído uma visão tão expressiva de uma cultura que, à força de culpabilizar o sexo e explorar a pornografia, acabou por destruir a possibilidade do amor físico.
A outra sequência crucial é a da família francesa que Willard e seus homens encontram, já no Camboja, num fazendão à beira do rio. No jantar de que participam na fazenda, vêm à tona as diferenças entre o velho colonialismo e o novo imperialismo.
"Lutamos para manter o que é nosso", diz o patriarca da família, enraizada no local há 150 anos. "Vocês, americanos, lutam pelo maior nada da história."
Envolto em brumas, esse interlúdio francês realça o tom irreal e fantasmático da viagem e prepara o encontro final com Kurtz.
Mas o que há de mais perturbador em "Apocalypse Now" é o fato de envolver visceralmente o espectador no turbilhão da guerra. Não há só "o horror, o horror" nesse espetáculo, mas também fascínio e euforia.
Como se não só a razão, mas também o lado obscuro, doente ou bárbaro de cada um de nós fosse provocado por essa sinfonia de imagens e sons -uma das mais geniais que o cinema criou.
Há 17 anos
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